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Estoico DiárioFilosofia para quem lidera

. Virtude, com Marco Aurélio.

Se não é verdade, não diga

A Justiça aceitou denúncia contra ex-executivos da Americanas no caso da fraude contábil. Marco Aurélio deixou uma regra de duas linhas para quem assina números.

A 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro aceitou a denúncia do Ministério Público Federal e tornou réus 12 ex-executivos da Americanas, no caso das inconsistências contábeis reveladas pela própria empresa em janeiro de 2023, segundo a CNN Brasil. As inconsistências somaram cerca de R$ 20 bilhões, e a varejista pediu recuperação judicial dias depois, conforme o Times Brasil. O processo corre em segredo de justiça; a empresa diz ter sido vítima de fraude.

Quem fez o quê, cabe à Justiça dizer. O que interessa aqui é outra pergunta, que vale para qualquer empresa: como um número deixa de ser verdade?

O número não mente sozinho

Raramente começa com uma grande decisão. Começa com um ajuste pequeno, “só neste trimestre”. Com um lançamento que fica para depois. Com uma meta que precisa fechar e uma planilha que aceita tudo. Cada passo parece pequeno demais para ser chamado de mentira. E é exatamente por isso que o passo seguinte fica mais fácil.

Os estoicos desconfiavam dessas zonas cinzentas. Para eles, a virtude não era um grande gesto heroico, mas a soma de pequenas escolhas, uma de cada vez. A honestidade não se decide uma vez na vida. Decide-se cada vez que alguém pergunta “dá para melhorar esse número?”.

Marco Aurélio governava um império e escrevia, para si mesmo, lembretes curtos sobre como agir. Num deles, no último livro das Meditações, a regra cabe em duas linhas:

“Se não é correto, não o faça; se não é verdade, não o diga.”

— Marco Aurélio, Meditações, 12.17

Repare que não há exceção. Não há “a não ser que o mercado esteja nervoso”, nem “a não ser que todos façam assim”. A regra é simples porque precisa ser usada na hora, sob pressão, quando não há tempo para longas teorias.

O que isso tem a ver com quem lidera

Quem lidera raramente mente com todas as letras. O risco está em outro lugar: no silêncio diante do número arredondado para cima, na apresentação que mostra só a metade boa, no “não me traga problema, me traga solução” que ensina a equipe a esconder problemas.

O líder define, mais pelo que tolera do que pelo que diz, qual é o preço da verdade na sua casa. Se a má notícia custa caro para quem a traz, ela chega tarde ou não chega. Se a boa notícia exagerada é premiada, os números ficam cada vez mais bonitos e cada vez menos verdadeiros.

A regra de Marco Aurélio tem duas metades, e as duas importam. “Não o faça” fala da ação. “Não o diga” fala do relato sobre a ação. Uma empresa pode até errar uma decisão e se recuperar. O que não se recupera com facilidade é a confiança no que ela diz sobre si mesma.

E há um alívio nessa regra. Quem só diz o que é verdade não precisa lembrar o que disse a quem.

A prática de hoje

Escolha um número que você vai apresentar ou assinar nesta semana: uma previsão, um resultado, um prazo.

  1. Faça a pergunta. “Se alguém de fora olhasse como este número foi feito, eu ficaria tranquilo?”
  2. Procure o ajuste. Identifique qualquer premissa que você escolheu porque deixava o número melhor, e não porque era a mais provável.
  3. Diga em voz alta. Na apresentação, explicite essa premissa. Uma frase basta: “Este número supõe que…”
  4. Abra a porta. Pergunte à sua equipe, de forma direta, se há algo no relatório que eles hesitaram em lhe contar. E agradeça a quem responder.

Tradução da citação feita pelo Estoico Diário a partir da tradução inglesa de George Long, em domínio público.

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