Espere um pouco, impressão
O carro voador da Embraer soma 2.700 pedidos, entre intenções e encomendas firmes. Epicteto ensinava a parar diante de toda impressão forte e perguntar do que ela é feita.
A Eve, empresa ligada à Embraer que desenvolve um eVTOL, o chamado “carro voador”, informou que a aeronave já acumula 2.700 pedidos em oito países. O número reúne cartas de intenção e encomendas firmes, com valor estimado de US$ 13,5 bilhões, segundo a CNN Brasil. A aeronave ainda não tem certificação, e a expectativa é que a ANAC a conceda até o fim de 2028.
Se o projeto vai decolar, o tempo dirá. O que interessa aqui é o número em si, e o que ele provoca em quem o lê.
Do que é feito um número
“2.700 pedidos” é uma frase que acelera o pulso. Antes de qualquer análise, a cabeça já imaginou a fila na porta da fábrica. A própria matéria, porém, diz do que o número é feito: há cartas de intenção e há encomendas firmes, somadas no mesmo total. São coisas diferentes. Uma é um compromisso; a outra é um sinal de interesse.
Nada de errado nisso. Somar intenções e contratos num só número é comum, e quem informa com cuidado diz o que está somando. O risco não está em quem divulga. Está em quem lê depressa.
Os estoicos tinham uma palavra para esse primeiro clarão que chega à mente: impressão. A notícia, o elogio, a ameaça, a planilha bonita. Tudo chega primeiro como impressão. A impressão não é culpa nossa e não depende de nós. O que depende de nós é o passo seguinte: dar ou não dar o nosso assentimento, isto é, aceitar ou não que aquilo é o que parece ser.
Epicteto, que foi escravo antes de ser mestre, passou a vida treinando os alunos nesse intervalo. Num dos seus discursos, ele ensina a frase que se deve dizer quando uma impressão forte chega:
“Antes de tudo, não se deixe arrastar pela rapidez da impressão, mas diga: Impressão, espere um pouco por mim; deixe-me ver quem você é e do que se trata; deixe-me pôr você à prova.”
— Epicteto, Discursos, 2.18
Repare na palavra “rapidez”. O problema não é a impressão ser falsa. Muitas vezes ela é verdadeira. O problema é a velocidade com que ela pede para ser aceita. Quem assente na hora decide antes de pensar. Quem pede um minuto devolve a decisão para si.
O que isso tem a ver com quem lidera
Toda liderança vive cercada de números que aceleram o pulso. O funil de vendas cheio. A previsão de receita do trimestre. O “cliente praticamente fechado”. A pesquisa interna que diz que está tudo bem. A notícia ruim que chega pela metade e parece o fim do mundo.
Nesses momentos, há dois erros comuns. O primeiro é o entusiasmo: tomar a intenção como contrato, contratar e investir em cima de um número que ainda não existe. O segundo é o seu espelho, o pânico: tomar um sinal fraco de perda como perda consumada e cortar o que não precisava ser cortado. Os dois nascem do mesmo lugar, o assentimento apressado.
Epicteto não pede desconfiança de tudo. Pede um intervalo. Um gestor que diz “espere um pouco” diante do próprio entusiasmo não está sendo pessimista. Está fazendo o trabalho dele: separar o que já é fato do que ainda é desejo, seu ou do outro.
E há um ganho silencioso nisso. A equipe aprende com o que o líder aceita. Se ele compra qualquer número bonito, os números ficam cada vez mais bonitos. Se ele pergunta, com calma, “isso é firme ou é intenção?”, a casa inteira passa a trazer números mais honestos.
A prática de hoje
Escolha o número que mais mexeu com você nesta semana, para o bem ou para o mal. Pode ser uma meta, uma previsão, um relatório.
- Diga a frase. Antes de reagir, diga a si mesmo: “Espere um pouco. Deixe-me ver do que você é feito.”
- Abra o número. Separe, por escrito, o que nele é compromisso assinado e o que é expectativa, estimativa ou promessa.
- Ponha à prova. Faça uma pergunta a quem trouxe o número: “O que precisaria acontecer para isto não se confirmar?”
- Só então decida. Tome a decisão que estava esperando, agora com base no que é firme.
Tradução da citação feita pelo Estoico Diário a partir da tradução inglesa de George Long, em domínio público.