Explorador, não desertor
O Magalu passou a vender estoque próprio dentro da Shopee. Sêneca dizia que entrava no acampamento alheio como explorador, nunca como desertor.
Desde ontem, produtos do estoque próprio do Magazine Luiza e da KaBuM! estão à venda na seção de lojas oficiais da Shopee. A entrega continua com o Magalog, a logística do próprio grupo, segundo a CNN Brasil. Não é o primeiro movimento do tipo: a empresa já tinha fechado acordos com o AliExpress e com a Americanas, conforme o InfoMoney.
Se a estratégia vai dar certo, o tempo dirá. O que interessa aqui é a cena em si: uma empresa que tem o próprio marketplace vai vender dentro da casa de outro.
O acampamento alheio
Sêneca era estoico, e os estoicos tinham uma escola rival: os epicuristas. Discordavam no essencial, sobre o prazer, sobre os deuses, sobre a vida pública. Mesmo assim, em muitas das primeiras cartas a Lucílio, Sêneca fecha o texto com uma frase de Epicuro. Na segunda carta, ele explica por quê:
“Pois costumo atravessar até o acampamento alheio, não como desertor, mas como explorador.”
— Sêneca, Cartas a Lucílio, 2.5
A imagem é militar. O desertor cruza a linha e muda de lado: larga as suas armas e veste o uniforme do outro. O explorador cruza a mesma linha, mas por outro motivo. Vai ver o terreno, aprender o que o outro sabe e voltar mais útil para os seus.
O detalhe importante é que os dois fazem o mesmo trajeto. De fora, parecem iguais. A diferença está dentro: em quem a pessoa continua sendo quando está do outro lado.
Para os estoicos, isso tem nome. O que nos define não é o território onde pisamos, mas os princípios que levamos conosco. Quem tem clareza sobre eles pode circular por qualquer lugar. Quem não tem se perde até em casa.
O que isso tem a ver com quem lidera
Toda carreira longa pede travessias. Trabalhar com o concorrente num consórcio. Contratar alguém que veio do rival. Ler o livro de quem pensa o oposto. Ouvir com atenção o crítico mais duro da sua estratégia. Usar o canal, a ferramenta ou o público de outra empresa.
Há dois erros comuns diante disso. O primeiro é o orgulho: nunca atravessar, por achar que aprender com o outro é admitir fraqueza. Esse líder fica protegido e cego. O segundo é a deserção silenciosa: atravessar tanto, e com tão pouca clareza, que aos poucos a empresa vira cópia do rival. Esse líder fica atualizado e sem identidade.
Sêneca aponta o caminho do meio. Atravessar, sim, e com frequência. Mas sabendo, antes de sair, o que não se negocia. No caso da carta, ele não vira epicurista; colhe uma ideia boa e a examina com olhos estoicos. Na empresa, o equivalente é saber o que continua sendo seu quando você entra na casa do outro: o padrão de atendimento, a palavra dada, a forma de tratar a equipe.
O explorador também volta. Não basta ver; é preciso trazer o que se viu e pôr para trabalhar. Visita ao campo inimigo sem relatório é só turismo.
A prática de hoje
Separe vinte minutos para uma travessia.
- Escolha o acampamento. Um concorrente, um crítico, alguém de outra área ou de outra escola de pensamento que você costuma descartar.
- Faça o reconhecimento. Estude uma coisa que eles fazem melhor do que você. Uma só. Anote com honestidade.
- Traga de volta. Escreva uma ação concreta para aplicar isso na sua equipe nesta semana.
- Marque a linha. Escreva também uma coisa que você não trocaria, mesmo que o outro lado ganhe com ela. É isso que faz de você um explorador, e não um desertor.
Tradução da citação feita pelo Estoico Diário a partir da tradução inglesa de Richard Gummere e do texto latino, em domínio público.