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Estoico DiárioFilosofia para quem lidera

. Virtude, com Marco Aurélio.

Receber sem arrogância, soltar sem apego

A crise da Casas Bahia já movimenta credores e concorrentes. Marco Aurélio deixou uma regra curta para quem está do lado que ganha e para quem está do lado que perde.

A Casas Bahia está em recuperação judicial desde agosto. No último dia 8, um fundo imobiliário que aluga dois galpões logísticos à varejista entrou na Justiça com um pedido de despejo, por aluguel atrasado, segundo a InvestNews. Ao mesmo tempo, concorrentes fazem as contas. O Valor Econômico noticiou cálculos de que o Magazine Luiza poderia capturar até R$ 7 bilhões em vendas da rival, conforme o GiroNews; questionada pela CVM, a empresa disse que não comenta estimativas de terceiros, segundo o Acionista.

Não cabe aqui julgar ninguém. Cabe olhar para o que uma cena assim pede de quem lidera, de um lado ou do outro do balcão.

Uma regra de duas linhas

Marco Aurélio governou Roma. Teve mais poder e mais riqueza do que quase qualquer pessoa do seu tempo. Nas anotações que, ao que tudo indica, escrevia para si mesmo, e que conhecemos como Meditações, há uma regra curtíssima sobre isso:

“Receber a riqueza ou a prosperidade sem arrogância; e estar pronto para deixá-la ir.”

— Marco Aurélio, Meditações, 8.33

No grego, a segunda metade diz algo como “soltar com facilidade”. Não é desprezo pelo sucesso. Marco Aurélio não manda recusar a prosperidade. Manda recebê-la de um certo jeito e segurá-la de um certo jeito: sem se inflar quando ela chega, sem se agarrar quando ela vai.

Para os estoicos, riqueza, posição e fama podem ser preferíveis, mas não são o bem. Não é por tê-las que alguém se torna bom. Vêm e vão por causas que, em grande parte, não controlamos. O que é inteiramente nosso é a postura diante delas.

O que isso tem a ver com quem lidera

Pense em quem está do lado que ganha. Quando um concorrente tropeça, clientes, vendedores e fornecedores mudam de endereço. Parte do crescimento que aparece no relatório não foi conquistada; foi herdada de um momento. A arrogância começa quando o líder confunde as duas coisas. A equipe passa a acreditar que é melhor do que é, os custos sobem, o cuidado com o cliente cai. E o próximo ciclo, que sempre vem, encontra a casa desarrumada.

Receber sem arrogância é, na prática, perguntar com honestidade: quanto disto é mérito nosso e quanto é circunstância? E tratar o rival com respeito, em público e nas conversas internas. O mercado lembra de quem comemorou a queda dos outros.

Agora pense em quem está do lado que perde. Lojas que fecham, contratos renegociados, decisões duras todos os dias. “Estar pronto para deixar ir” não é resignação. É a capacidade de soltar o que já não se sustenta, um ponto comercial, um plano, uma imagem de si, sem gastar no apego a energia que falta para a próxima decisão. Quem se agarra ao que perdeu decide pior sobre o que ainda tem.

A mesma regra vale para os dois lados porque, na vida de qualquer líder, os dois lados se alternam. Quem ganha hoje já perdeu antes e vai perder de novo. A pergunta é com que caráter atravessa cada fase.

A prática de hoje

Separe dez minutos e escreva duas respostas.

  1. Sem arrogância. Qual resultado recente seu ou da sua equipe teve uma boa dose de sorte, de momento ou de erro alheio? Escreva isso com todas as letras. Se for o caso, diga em voz alta na próxima reunião.
  2. Pronto para soltar. Se esse resultado, o maior cliente, o cargo ou a posição de mercado sumisse amanhã, o que você faria na primeira semana? Escreva três ações.

Guarde a folha. Ela serve para os dias bons e para os ruins.

Tradução da citação feita pelo Estoico Diário a partir da tradução inglesa de George Long, em domínio público.

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